A mais nova fofoca do mundo do futebol reacendeu em mim uma indignação que poderia ser mais levantada na sociedade. Maiara Porto foi apresentada à família do jogador Gonzalo Plata e parece estar cada vez mais próxima de oficializar o namoro com o atleta do Flamengo. A atriz, que já frequenta jogos no Maracanã, agora também integra o subgrupo das "Flaesposas" no beach tênis.
O início do relacionamento foi marcado por polêmicas envolvendo acusações de infidelidade por parte do jogador, com troca de farpas entre Maiara e a ex-namorada de Plata, Fernanda Cardoso. Apesar das controvérsias, o casal tem mostrado estabilidade, e amigos próximos afirmam que o namoro é oficial, faltando apenas o anúncio público.
Até aí, só mais uma fofoca, né? Mas a questão não é essa. Ao ver essa nova "notícia", lembrei da foto de julho de 2024 que mostrava as esposas dos jogadores da Seleção Brasileira. Todas praticamente idênticas, loiras e magras. Essa preferência de muitos jogadores de futebol por mulheres brancas, magras e loiras reflete questões profundas de racismo estrutural e a valorização de padrões de beleza eurocêntricos na sociedade brasileira (e latino-americana como um todo, pois Gonzalo é equatoriano). Esse fenômeno vai além de uma simples questão de gosto pessoal, evidenciando a objetificação do corpo feminino e a internalização de ideais estéticos que privilegiam a branquitude como símbolo de status e sucesso.
O jovem Endrick, de 18 anos, brasileiro no Real Madrid, é mais um para o time. Casou com a loira magra influenciadora digital Gabriely Miranda. Segue perpetuando a triste "tradição".
Endrick e Gabriely Miranda. Foto: Reprodução
No universo do futebol, muitos atletas, especialmente os negros e oriundos de contextos socioeconômicos desfavorecidos, veem na ascensão profissional uma oportunidade de adequação a padrões sociais que simbolizam aceitação e prestígio. Assim, ter ao lado uma parceira que personifica o padrão dominante pode ser percebido como parte dessa conquista, enquanto mulheres negras são frequentemente marginalizadas em função de estereótipos e exclusões históricas.
Essa exclusão não é apenas estética, mas profundamente social. Dados recentes do IBGE mostram que mães solo negras com filhos de até 14 anos formam o grupo mais vulnerável economicamente no Brasil. Alarmantes 72,2% vivem na pobreza e 22,6% estão em situação de extrema pobreza. Em contraste, mães brancas enfrentam números bem menores, destacando o abismo racial no país. Essa realidade reflete o impacto do racismo estrutural, que limita o acesso de mulheres negras a melhores oportunidades, perpetuando ciclos de exclusão.
A supervalorização de padrões eurocêntricos por parte de figuras públicas, como os jogadores de futebol, reforça essas disparidades. Não é apenas uma questão de gosto, mas um reflexo de como construções sociais desvalorizam a negritude e fortalecem preconceitos. A mídia e as redes sociais, ao perpetuarem esses estereótipos, também contribuem para aumentar a pressão estética e o sentimento de inadequação em mulheres que não se enquadram nesse padrão.
Esposas de jogadores de futebol. Foto: Reprodução
Desconstruir essa mentalidade exige uma mudança cultural profunda. É preciso valorizar a diversidade e reconhecer a beleza que existe em corpos de diferentes raças e biotipos. Mulheres negras, frequentemente relegadas a espaços de vulnerabilidade, merecem ocupar não apenas espaços de prestígio, mas também serem celebradas em sua autenticidade.
A luta por um futuro mais inclusivo e igualitário deve passar por essa reflexão. Questionar esses padrões, promovendo narrativas que valorizem a pluralidade, é essencial para romper com os preconceitos que ainda moldam a sociedade brasileira. A beleza, afinal, está na diversidade, e já passou da hora de reconhecer e celebrar isso.